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Segunda, 14 Setembro 2015 21:45

O Preço de uma Escolha (If These Walls Could Talk) - HDTV Legendado (1996)

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.::Informações

Formato: MP4
Qualidade: HDTS
Áudio: Ingles
Legenda: Portugues
Gênero: Drama
Tamanho: 279 MB
Qualidade de Audio: 10
Qualidade de Vídeo: 10
Ano de Lançamento: 1996
Duração: 1h e 37 min

.::Sinopse

Anotação em 1997: Não dá para evitar a frase: existem filmes ruins, existem filmes bons, existem filmes ótimos, existem filmes excepcionais e existem filmes imprescindíveis, vitais, fundamentais. Esta última categoria engloba um número muito pequeno de filmes. E este aqui pertence a ela.

Todas as pessoas deveriam ver este filme. Todas as pessoas que se importam com a mulher deveriam ver este filme. Especialmente, todas as mulheres deveriam ver este filme.

Ele foi apresentado pela primeira vez na HBO no dia 13 de outubro de 1996, um domingo, às 9 horas da noite. (Vi isso em anúncio de página inteira na Premiere desse mesmo mês,) Deve ter sido um espanto, um choque, nos Estados Unidos.

Segunda constatação básica, que se mistura a outra, mais ampla: como o cinema fala pouco de aborto – e como o aborto é uma coisa tão fundamental na vida.

Aborto é um dos três ou quatro principais temas de pelo menos metade da população da Terra. (Pelo menos metade, digo eu, se levarmos em conta que a outra metade, a que produziu o feto sobre o qual se discute se deve continuar existindo ou não, poderia não estar interessada no assunto.) E, no entanto, como o aborto está fora do cinema, assim como está fora, por exemplo, da discussão sobre Brasil.

A ver, de maneira pouco séria, pouco metódica: falaram sobre aborto – Cabaret, Um Assunto de Mulheres, do Chabrol, Este Mundo é Meu, do Sérgio Ricardo, tipo 1965 – e não me lembro de outro.

(Fiz, depois, de maneira metódica, uma pesquisa, com ajuda do Cinemania. Encontrei 11 filmes que citam o aborto só en passant, não se fixando no assunto; quatro filmes citam o horror do aborto praticado em condições precárias; dois filmes feitos para a TV americana nos anos 80 discutem seriamente o aborto, apresentando pontos a favor; e apenas três são escancaradamente a favor do direito ao aborto legal: Duas Mulheres, Dois Destinos/L’Une Chante, L’Autre Pas, de Agnès Varda, França, 1976, este agora, O Preço de uma Escolha/If These Walls Could Talk, e Rain Without Thunder, uma ficção científica sobre um tempo no futuro nos EUA em que o aborto é tratado como crime.)

Mas não é por ser raro que este filme é brilhante. Este filme é brilhante porque ele vai fundo, mata a cobra e mostra o pau. É cru, cruel, violento, chocante. É um panfleto rasgado, brilhantíssimo – e, no entanto, ao contrário da imensa maioria dos panfletos, inteligentíssimo, não sectário, aberto aos contrários, com espaço para digerir todos os argumentos do lado de lá. Porque ele tem tanta certeza da clareza e da correção de sua posição que não teme os argumentos do lado de lá.

(Gozado, essa coisa de violência. Me ocorreu que há muito, muito tempo um filme não me deixava tão inquieto, tão desassossegado em minha poltrona como este. Há tempos eu não fechava os olhos durante tanto tempo para não ver uma tomada violenta demais que está sendo exibida na tela. Neste, eu simplesmente saí da sala e fiquei uns três minutos sem ter coragem de olhar. Essa sensaçào de terrível incômodo, só me lembro de ter tido no último Kubrick, Nascido para Matar/Full Metal Jacket, já lá se vai uma década.)

Argumentei também agora há pouco com Marynha que outra coisa fascinante neste filme é que ele é uma obra coletiva, e ao mesmo tempo é tão coeso, tão nítido, tão claro. Óbvio, o cinema é por definição a arte mais coletiva que existe. Mas o fato de haver tantas pessoas envolvidas na produção poderia ter criado problemas, o consenso é sempre difícil num grupo grande – mas não, não é isso que acontece. É um filme de consenso sobre tema tão crucial, e que divide a humanidade em duas partes irreconciliáveis. Claro, todos os envolvidos no projeto são pró-aborto, ou pro-choice, como eles dizem entre eles naquele Império maluco. Mas é impressionante como se chegou a um resultado tão uníssono numa obra feita a 500 mãos.

O filme parte daquele princípio de que este tema, possivelmente como nenhum outro, divide a humanidade em duas partes irreconciliáveis. Mais talvez até do que o racismo – outra das grandes questões do mundo. Os conceitos de esquerda e direita, corporação e coletividade, privado ou estatal, por exemplo, que no Brasil sempre tão atrasado dos anos 90 e muitos rendem páginas e páginas de jornais, florestas inteiras abatidas, são pó de traque diante da real divisão do mundo em duas partes quando se pensa e se fala em racismo – e, muito mais ainda, em aborto.

Começa com um clip de cenas reais das últimas décadas, manifestações de rua contra e pró-direito ao aborto. E aí então tem a apresentação do primeiro episódio.

No primeiro episódio, passado em 1952, Demi Moore faz o papel de Claire; e depois deste filme é preciso rever os conceitos sobre essa mulher que empresta seu nome milionário e sua própria imagem, de megastar sexy e sex symbol, à causa, mostrando essa tragédia tão absolutamente antiglamour que é vomitar, tentar matar um feto enfiando agulha no útero e depois realizando um aborto em cima da mesa da cozinha com um carniceiro à sua frente.

Claire é uma jovem enfermeira em uma cidade qualquer dos Estados Unidos. (Não se identifica a cidade naquele propósito básico de universalizar; pode ser qualquer cidade, qualquer uma.) Desde a primeira cena sabemos que o marido dela morreu servindo o Exército, e que ela está procurando uma forma de fazer um aborto. Pergunta ao médico do hospital em que trabalha, ele simplesmente diz que é ilegal; depois pergunta para a enfermeira-chefe, que eventualmente dará o nome de uma mulher que indica um bom profissional em Porto Rico, a um preço –  US$ 1 mil – inacessível a Claire, e depois um mais barato, que faria o serviço na casa dela mesmo.

É só enquanto a ação vai se desenrolando, enquanto Claire prossegue buscando uma forma de se livrar da gravidez, que o espectador fica sabendo como Claire se engravidou – e fica sabendo que nesse caso específico não há outra possibilidade a não ser o aborto. O marido de Claire morreu seis meses antes de a ação começar. A família do marido, uma família de meios, como se dizia, a ajuda, dá suporte, material e emocional. Mas é conservadora, e muito conhecida na cidade. E o pai do feto é o cunhado de Claire, irmão mais novo do marido morto; em um flashback rápido, bem feito, simples, vemos que um dia ele foi à casa de Claire e ela estava desconsolada, absolutamente arrasada com a morte do marido. Ele tenta consolá-la, dar-lhe apoio, e a abraça. Qualquer ser humano com mais de 30 anos já passou por uma experiência assim ou sabe de quem já passou, uma união na dor que acaba resultando em carinho físico e leva a uma trepada não desejada, não planejada, não por sacanagem, malandragem, mas simplesmente porque o ser humano é assim.

E depois desse flashback simplesmente não é possível discutir: Claire não pode mesmo ter o filho, que vai destruir a vida da família do marido, que gosta dela e a trata bem.

Antes de se entregar ao carniceiro, Claire tenta por suas próprias mãos. Toma remédios, mas tudo que consegue é vomitar a alma. Enfia agulha no útero – e, enquanto sofre uma dor absurda, é visitada pela cunhada, pessoa boazinha, mas aprisionada na sociedade imbecil, careta, conservadora, moralista, hipócrita, que fica horrorizada e vai embora correndo depois de dizer: “Mas todos nesta cidade conhecem nossa família”.

A cena do carniceiro é a que simplesmente não consegui ver. É de uma violência tão chocante quanto o filme de Kubrick que denuncia o horror do exército e da guerra, ou quanto Johnny Got His Gun, do Dalton Trumbo; só esses dois filmes me ocorrem que tenham tanta violência, que provoquem um impacto tão grande quanto essa cena, a mais horripilante jamais feita sobre aborto.

A violência não é gratuita. É preciso esbofetear com força os histéricos atacantes do aborto legal, para poder tentar chamar-lhes à razão. Mais ainda: mais tarde, neste filme magnífico, será explicado didaticamente por que essas cenas bárbaras tinham que ser mostradas.

(Uma lembrança de cinéfilo. A mãe do marido morto é interpretada por Shirley Knight, hoje gorda, uma senhora bonita aos 59 anos de idade; minha geração vai sempre se lembrar dela lindíssima, um espanto de beleza suave, aos 25 anos em flor, emDoce Pássaro da Juventude, do Richard Brooks, baseado em Tennessee Williams, interpretando a triste Heavenly Finley, que, na peça, recebe do namorado uma sífilis, e, no filme, suavizado para não ser proibido pelo rigor do puritanismo hipócrata americano, uma gravidez proibida pelo pai, o político corrupto que manda na cidade; Doce Pássaro, com o personagem interpretado por Shirley Knight, é um daqueles 11 filmes que citam en passant o aborto – apenas 11, entre os mais de 10 mil citados pelo Cinemania.

Seguramente não é por coincidência que Shirley Knight foi escolhida para participar deste filme. Seguramente não.)

O segundo episódio se passa em 1974, e vemos que a ação acontece na mesma casa onde, 22 anos antes, a jovem enfermeira Claire foi imolada no altar da hipocrisia. Veremos mais tarde que parte do terceiro episódio também se passa na mesmíssima casa, daí o título original, If These Walls Could Talk.

Sissy Spacek interpreta Barbara, classe média média, quatro filhos, dois já adolescentes, marido policial, levemente autoritário com os filhos, tratando a mulher com carinho mas deixando para ela absolutamente todas as obrigações da casa. Em poucos segundos vemos a realidade da vida de Barbara, igual a de centenas de milhares de outras mulheres que eram adultas nos anos 70: dupla jornada duríssima, sem dividir nenhuma tarefa de casa com o marido, enfrentando as exigências dos filhos menores e a oposição surda e a má vontade da filha adolescente, inconformada por ver a mãe escravizada pelas obrigações do lar. Barbara nunca pôde terminar a faculdade, em função dos filhos; agora, no momento da ação, está tentando mais uma vez. Na primeira seqüência, pela manhã, ela na cozinha atendendo aos filhos para em seguida sair para a faculdade, Barbara liga para o laboratório, e tem a confirmação: está grávida de novo.

Os tempos são bem menos negros que 22 anos antes; houve imenso progresso. O aborto é legalizado, a maior amiga de Barbara já fez – e não se arrepende -, já há livros ajudando a escolher clínica, Serviço de Saúde da Mulher já dá informações pelo telefone. Barbara tem dúvidas, não sabe bem o que quer. A filha adolescente acha que ela deveria abortar – pelo próprio bem da mãe, para ela poder terminar a faculdade, ter menos trabalho, e até por motivos egoistas, pelo bem da filha mais velha; o novo filho impediria que a mais velha fosse para faculdade cara, teria que se contentar com a estadual. O marido nem chega a pensar na possibilidade do aborto; abre mão da aposentadoria, continua trabalhando, aperta os filhos, abre espaço na casa para o novo.

Barbara tem o direito de decidir. E decide ter o filho, para choque da mais velha. Decide porque decide; só cabe a ela, e ela decide. Tem o direito.

O terceiro episódio é em 1996, o ano em que o filme foi produzido, em que a sociedade americana está dividida ao meio e a questão do aborto é discutida em todas as cortes superiores de Justiça e nas ruas por manifestantes dos dois lados. A mesma casa onde Claire não podia optar e Barbara podia agora é uma república de estudantes, onde mora Chris (Anne Heche), pouco mais do que adolescente, grávida por sua relação com o professor casado que, tendo feito a besteira de participar de uma gravidez não desejada, consegue apenas dar a ela dinheiro para ajudar no aborto. Chris não sabe se quer abortar; teve educação religiosa, a família é irlandesa, católica radical; a amiga, como tantas outras adolescentes dos anos 90, cresceu ouvindo a cantilena histérica do anti-aborto a toda prova, e diz que não moverá uma palha para ajudar Chris se ela se decidir enfim pelo aborto.

Chris resolve enfim ir a uma clínica. Diante dela os dois lados têm seus manifestantes, com palavras de ordem, cartazes, argumentos. Mulheres rezam o terço e desfiam seus argumentos insanos para aquelas que entram lá. Chris é atendida por profissionais competentes, experientes, mas ainda não está pronta. Sai sob os aplausos das histéricas.

Mas voltará lá, decisão tomada, e com o apoio da amiga anti-aborto. A médica é interpretada por Cher, que dirigiu o episódio. Quando chega, tem que enfrentar a massa compacta dos anti-abortistas e seus slogans. E aí há o diálogo chave deste filme impressionante.

Chris, já deitada na mesa cirúrgica: “Com tudo o que a senhora tem que lidar, por que ainda faz isso?”

A médica: “Porque eu me lembro de como era quando era ilegal tomar essa decisão. Não quero que aqueles dias voltem. As mulheres me diziam que não sabiam o que fariam sem mim. Estou fazendo o que é certo.”

E aí há a cena chave do filme, de novo uma cena mostrando como o aborto é feito, e em tudo o contrário, a antítese da cena de horror que vimos com Claire-Demi Moore. A médica vai avisando Chris sobre tudo o que está fazendo, para que ela fique o tempo todo consciente de cada passo, e de que tudo está sendo feito direito, com anestesia, limpeza, assepsia. A câmara mostra os instrumentos cirúrgicos, limpos, esterilizados, imaculados – o oposto do que fazia o carniceiro de 1952, o que fazem até hoje quando a lei é burra e absurda e proíbe a escolha.

A operação termina; não há dor desnecessária, não há sangueira; a médica cumprimenta Chris por ter sido corajosa, se portado bem, enfrentado o desconforto.

Se você não viu o filme, não leia a partir de agora

O filme poderia perfeitamente terminar aí. Mas, como fez Kubrick em Nascido Para Matar/Full Metal Jacket, há um segundo soco de Mike Tyson na cara do espectador: um adolescente demente entra na sala de cirurgia, grita “assassina” e atira na médica.

Fonte: 50anosdefilmes.com.br/

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